Marselha
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dezembro 04, 2017
 

Movi meus braços sem muito alarde e sem sair do lugar, exatamente como a etiqueta previa. Não fiz nenhum movimento brusco, mal dava para perceber que havia tremido. Minhas pernas se mexeram involuntariamente e minhas mãos tamborilaram harmonicamente.
Cerrei os lábios, enterrei os olhos; esvaziei os pulmões, mas com cuidado para não ser audível. Enchi o peito novamente e tentei não rir de forma boba, como qualquer mulher que, se estivesse no meu lugar, também riria.
Eu quis sair dalí várias vezes, mas o arrepio da minha pele ao se encontrar com a brisa mediterrânea que invadia o quarto me segurava pelo punho. Vez ou outra que ela entrava, me lembrava porque estava à espera e me distraía da sensação de me sentir ridícula. Distraía também do não-passar do tempo; um eterno derreter dos minutos que eu mal conseguia suportar o marca-passo relógio. Com certeza estava há muito tempo na mesma posição. Talvez horas.
Olhei para Gil, quase que de espreita. Ele sorriu satisfeito.
- É a primeira vez que você olha para mim. -constatou ele.
Não consegui esboçar nada. Não tinha certeza se minha voz conseguiria sair e, na verdade, não sabia o que dizer.
- Algum problema?
- Não. - minha voz falhou.
Ele riu, quase uma gargalhada.
- Você parece aflita, Lena.
Respirei audivelmente em protesto a fala irônica de Gil. Mirei a janela e senti a brisa escapulir mais uma vez.
Ele deu outra risada despretensiosa e pôs o cabelo atrás da orelha. 
- Não vai demorar muito agora. - disse ele em um sorriso contido.
Meu corpo estremeceu, um arrepio atravessou minhas costelas e peito. Escorreguei os olhos até Gil, seguindo o desenho concentrado de suas sobrancelhas.
- Lena, você está sorrindo. - disse ele mal tirando os olhos da tela. -preciso que fique séria.
- Desculpe.
Apertei os lábios e respirei.
- No que estava pensando? -perguntou ele sem perder a concentração, mas em tom casual.
- No vinho do seu lado. -disse de uma vez só e sem encara-lo.
Ele riu.
Gil estava todo manchado de tinta e um pingo de suor começou a deslizar pela sua testa, se demorando a chegar ao queixo. Ele não era minucioso, não parecia ser atento a detalhes e vez ou outra conseguia ver seu nariz reto, como de uma estátua marmórea, sair por de trás da tela. Fantasiei em como ele estava me vendo, passando os olhos pelas minhas pernas e seios, boca, dedos... quase pude sentir a pele dele na minha só de seguir seus olhos em mim.
Mais uma vez o arrepio com a brisa vinda da janela. Olhei para as cortinas que bailavam aos caprichos do vento. Não havia lua naquela noite, ou se havia, ela preferia se manter despresentificada daquele quarto. No entanto, o pincel na tinta, as manchas no chão, a chama da lareira e o bule com essência de lavanda, reivindicavam seu espaço com gosto, e o vinho e o pão continuavam à espera na mesa para a ceia jamais tocada. La fora, a sombra e o farfalhar de grandes árvores, denunciavam a tal da brisa que chegava pouco depois, sem demora. E então, um susto seguido pelo revirar do meu estomago quando Gil bradou o término da pintura.
Fingi não ter pressa de por o roupão e me levantei da cama.
Fui me ver pintada na tela de Gil. A quase concretude de mim me fez levar as mãos à garganta. Eu não pude, nem conseguia falar nada. Do instante que eu vi os traços tintos-tingidos na tela, ao que eu olhava para ele e ele olhava da pintura para mim, sem sorrir e com um ar de tédio, passei minha mão nos meus cabelos até a nuca. As palavras ainda não me cabiam, eram uma luva sem par.
Soltei o ar, não sabia que ele estava há tanto tempo preso nos meus pulmões. Fui até a mesa do vinho, enchi duas taças, entreguei uma a Gil e brindamos. O tilintar das taças disseram mais do que eu poderia ser capaz. A brisa voltara, estremeci mais uma vez. Ele ouviu o silêncio e soube o que eu havia sentido.

o que rangeu hoje foram os ombros
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setembro 04, 2017

Enquanto falava sem parar, me perguntaram “tudo bem, mas onde está sua paixão?”.
Foi tão de surpresa que me calei. Me calei e estremeci.
E repeti: Onde está minha paixão?
Meu desejo e minha vontade de abrir os olhos e não queima-los ao encontrar o sol?
Morri por dentro como mais uma vez era para morrer.
Me joguei de um precipício
Caí no mar,
Mergulhei em cílios,
Águas de saliva,
Algas de cabelos,
Emaranhados de dedos seguraram meus tornozelos e me jogaram ao chão no que fui dar um passo, não foi mais possível andar e meus ombros sairam do lugar.
Hoje senti a dobradura do meu braço pela primeira vez. Elas doeram e me provaram que estiveram ali segurando meus braços e ombros.
Ah os ombros...
Não sei para onde foram os meus ombros.
Constatei que dessa vez não foram minhas pernas que saíram para andar sozinhas e meu torço se mexe agora; foram meus ombros que pararam de reagir. Deles eu nunca mais tive respostas e fico me perguntando o que eu fiz pra eles me deixarem com todo o meu resto.
Mexi o pescoço devagar, vai que ele acorda o ombro direito, pode ser que esteja cochilando depois de um longo tempo aguentando absurdos de pesos que coloquei em cima dele ao longo dos anos.
Irônico mesmo foi eu alisando-o quase como um carinho. “Ora seu maldito... você está dormindo ou se foi de vez? Será que escangalhou? Será que ainda há como recuperá-lo?” e pigarreei umas duas vezes. “Pelo amor de deus, já está ridículo eu implorar que pedaços de mim fiquem. O que diriam se vissem esse velho, nesta cadeira, pedindo para um ombro se mexer?”. Olhei para os lados para me certificar que ninguém me via enquanto eu falava com meus cacos.
Olhei para o relógio certa tarde e quando levantei a cabeça de novo, minha pele estava manchada e minha testa franzida. Havia poeira na janela e no colchão. Deixei minhas costas deitarem na cama, senti o cheiro de madeira e o vento gelado que vinha da porta entre-aberta.
Ouvi um chorinho de melodia triste vindo da cozinha, do rádio antigo que ficava perto do balcão, quando cheguei lá, havia apenas ruídos da estática compondo uma nova música irritante demais para os meus ouvidos.
Pisquei algumas vezes, apertei o lábio e limpei a garganta.
Fingi segurança quando respondi que minha paixão estava para ser encontrada ainda, mas a verdade era que eu ainda me perguntava: Onde está minha paixão?

Ensaio sobre veraneio
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agosto 21, 2017
​Posso entrar?
Não vou ficar muito tempo.
Vou tirar umas coisas do lugar,
mas não vou desarrumar muito.
Deixei os sapatos do lado de fora
pra não ter tudo de mim aqui dentro.
Coloquei uma música que
não sabia se você iria gostar;
também coloquei um filme na tv pra passar,
assim,
meio sem pretensão.
Endireitei um quadro na parede,
levantei um porta-retrato.
Quanto tempo você não abria as janelas?
Ou as cortinas?
Quando foi a ultima vez que pegou um livro na estante?
Coloquei mais uns dois novos,
vai demorar uns três meses para você descobrir onde estão.
Tirei seu velho violão de trás do armário,
coloquei junto com as tintas em cima do balcão.
Deitei na tua cama,
acho que ficou meu perfume no travesseiro.
Quando trouxer alguém aqui
depois de mim,
você vai ter problemas.
Abri seu guarda roupas
e passei os dedos pelos seus cabides,
todos tão bem arrumados e em degradê de cores,
que nem parece que pertencem a você
e a todo esse caos
que perambula na sua cabeça.
Misturei as blusas sociais com as de ficar em casa
e troquei suas toalhas de lugar.
Fui pra cozinha
e coloquei a páprica no lugar da pimenta,
me diverti ao imaginar você sem entender
como aquilo foi acontecer.
No final do dia,
com o sol baixando e entrando pela janela
com a luz meio laranja, meio amarela
resolvi fazer um café
e ficou tudo com cheiro dele,
você sabe que faz bem para acordar e
eu sei que você gosta sem açúcar ou adoçante.


Essência de Lavanda
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junho 28, 2017

Não sou escritora; Sou qualquer coisa menos escritora. Qualquer coisa também não, Não sou muitas outras coisas. Não sou cantora, não sou escultora, não sou curadora. - Curandeira às vezes, mas só quando deixam ser. Não sou a que lê rápido os livros de capa dura, muito menos a que declama poesia barata na praia. Não sou muita coisa Não sou o que queria ser, nem quem eu deveria. Não sou morro planície lagoa mar Não sou a enxada da roça, não sou o concreto da casa, nem o asfalto da estrada, nem Júpiter, muito menos Saturno. Mas quando sou alguma coisa, sou com vontade. Sou a chuva que lança areia no Saara Sobre os automóveis de Roma, Mas só quando quero ser. Boa parte do tempo sou a calmaria do vento e o dilacerar da borracha no papel. Sou o saltar das pernas por cima da pedra na amarelinha, o passar dos quadros de uma película. Sou a brevidade de cinquenta anos e a eternidade que há dentro da espera. Sou quem faz o café e o deixa cheirando pela casa, quem pisa na ponta dos pés até a saída mais próxima, quem olha o quadro na parede, mas não quem se suja ao faze-lo. Sou a primeira a entrar, e a primeira a sair. Sou a essência de lavanda pela noite.

Passé
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março 05, 2017

Tem sido uma bela aventura,
mas isso não poderia durar.
Pois
sou breve,
breve momento.
Não me demoro muito.
Vou ali e
me lanço,
me intrometo e
me canso.

Deixo meu suor
nos lençóis em momentos
que não podia.
Me perco, g i r o,
retorno,
vago,
apareço antes
ou depois do horário,
nunca pontual.

Passo, perpasso,
tropeço,
deixo que passe.
Quando vejo, já foi.
Já fui.
E reclamo.
Murmuro.
Lastimo.
Me adentranho ao passado
como se fosse plausível,
como se fosse saudável.
Nunca saio dele,
Sou e não sou lembrada.
Deixo marcas disfarçadas
e sou marcada
até nos braços.

O vento me leva
mesmo que sempre
quisesse ficar
para meter meus pés
na areia.

Eu fui.
Eu era.
Não sei quando volto,
Ou se volto.

Quando você piscar de novo,
já estarei na sua memória,
cristalizada para toda vez
que quiser me visitar.

Enquanto isso
Estarei sendo breve
de novo.
Sem querer.
Sem poder.

E de pés descalços
para sentir cada
coisa e pessoa
que passar por mim e
eu passar por ela.